El Niño de volta ao radar: alta nos alimentos pode chegar a quase 20% e pesar ainda mais no bolso do brasileiro

Modelo do Rabobank mostra que efeito do fenômeno climático nos preços pode se arrastar por até seis meses, com hortaliças e carnes na linha de frente — e a NOAA já aponta 80% de chance de um El Niño forte até o fim do ano

O supermercado pode ficar mais caro nos próximos meses — e a culpa é, mais uma vez, do clima. Um modelo matemático desenvolvido pelo banco holandês Rabobank projeta que os efeitos do El Niño sobre os preços dos alimentos no Brasil podem levar até seis meses para atingir o pico, castigando primeiro os produtos in natura, como carnes, frutas e hortaliças, antes de se espalhar pelo restante da cadeia.

O estudo cruzou décadas de dados do Índice Oceânico Niño (ONI) — o termômetro oficial usado para medir a força do fenômeno — com o comportamento histórico da inflação de alimentos consumidos em casa durante os principais episódios de El Niño já registrados no país. E o resultado acende um sinal amarelo: segundo a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há hoje 57% de chance de um El Niño forte se formar, 16% de chance de um evento muito forte, e as projeções para o fim do ano já apontam 80% de probabilidade de um episódio forte se confirmar.

Quanto pode subir o preço da comida

A conta muda bastante dependendo da intensidade do fenômeno. Em um cenário de El Niño moderado, os alimentos in natura poderiam encarecer 13,4% no acumulado de 12 meses, um impacto de cerca de 0,36 ponto percentual na inflação oficial. Somando o efeito menor sobre semi-elaborados e industrializados, o El Niño moderado adicionaria aproximadamente 0,41 ponto percentual ao IPCA.

Já em um El Niño forte — o cenário mais provável segundo a NOAA — a projeção é mais dura: os produtos in natura podem subir quase 20%, sozinhos puxando 0,53 ponto percentual de inflação. Os semi-elaborados, como arroz e feijão, avançariam 3,6%, e os industrializados, 1,4%. No total, a comida sozinha poderia acrescentar 0,83 ponto percentual ao IPCA, com o efeito mais forte batendo cerca de seis meses depois do choque climático.

Por que a verdura sobe primeiro

Nem todo alimento reage à mesma velocidade, e entender essa lógica ajuda a explicar por que o preço da alface some do prato antes do preço do arroz. Os produtos in natura são os primeiros a sentir o baque: como as hortaliças têm ciclo de produção curto, qualquer instabilidade no clima já derruba a oferta em poucas semanas.

Os semi-elaborados — arroz, feijão e afins — sentem o golpe de forma mais lenta, geralmente puxados pelo encarecimento de insumos como fertilizantes e combustível usado na lavoura. Já os industrializados costumam ser os últimos a reagir, e de forma mais suave, porque o preço final deles também depende de embalagem, transporte e logística — etapas que não são afetadas diretamente pela chuva ou pela seca.

As capitais que vão sentir primeiro

O levantamento também mapeou onde o golpe deve chegar mais rápido. Regiões metropolitanas com maior peso do consumo ou da produção de alimentos in natura tendem a sentir a alta com mais intensidade e mais cedo — é o caso de Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Fortaleza e Belém, cidade que coloca a região Norte diretamente na rota do impacto.

Salvador e Recife, por outro lado, devem sentir o repasse de forma mais gradual — o que não significa alívio, já que o efeito ali tende a durar mais tempo, mesmo chegando com menos força no primeiro momento.

Café, milho e leite também entram na lista de risco

Levantamentos do Itaú BBA e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) ampliam a lista de produtos sob ameaça. Segundo Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, milho, café, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz estão entre as culturas mais expostas ao fenômeno — e o leite também pode encarecer, dependendo do volume de chuvas no Sul do país.

No Centro-Oeste e no Norte, a preocupação é outra: a seca prolongada pode comprometer a qualidade das pastagens e pressionar a pecuária, justamente nas regiões onde a criação de gado sustenta boa parte da economia local. Já no Sul, o excesso de chuva pode até favorecer pontualmente algumas culturas de inverno — um raro respiro em meio ao cenário de alerta.

Nem tudo é perda: quem pode se beneficiar

Enquanto a maior parte do país se prepara para o aperto no bolso, o Inmet aponta que algumas regiões podem sair ganhando. No Nordeste, o calor e o volume mais baixo de chuva podem favorecer a colheita do feijão, enquanto no Sul as chuvas acima da média tendem a beneficiar as culturas de inverno — mostrando que os efeitos do El Niño não são uniformes em todo o território brasileiro.

De qualquer forma, o alerta está dado: entre a lavoura e a gôndola do supermercado, o El Niño promete ditar o ritmo da inflação de alimentos nos próximos meses — e o bolso do consumidor, de norte a sul do país, deve sentir o reflexo.

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