Quedas de até 14 centímetros em 24 horas atingem Negro, Solimões, Japurá e Amazonas, enquanto El Niño reforça previsão de menos chuva na região
O nível dos rios amazonenses está descendo em ritmo acelerado. Nesta quarta-feira (26), diferentes pontos da bacia registraram quedas de até 14 centímetros em apenas 24 horas — um movimento que, somado ao avanço do El Niño, já liga o sinal de alerta para o período mais crítico da vazante, entre setembro e novembro.
O fenômeno não é novidade para quem vive às margens dos rios amazonenses: é parte do ciclo natural das águas. Mas a velocidade da queda observada agora reacende a memória das secas históricas de 2023 e 2024, quando comunidades ribeirinhas ficaram isoladas e o abastecimento de municípios inteiros foi comprometido.
Manaus sente a queda mais forte no Rio Negro
Entre os pontos monitorados, o Rio Negro, na capital amazonense, teve a redução mais expressiva: 14 centímetros em 24 horas, levando a régua para 24,93 metros.
Para entender a gravidade — ou não — desse número, a comparação histórica ajuda. Nos últimos cinco anos, só 2024 registrou uma queda diária maior na mesma data, de 24 centímetros, no ano que se tornaria a seca mais severa já registrada em Manaus.
Já frente a 2025, quando o Negro marcava 27,15 metros nesta mesma data, e a 2023, quando estava em 24,45 metros, a cidade ainda aparece em situação mais confortável que nos dois anos de seca extrema. O detalhe que preocupa é outro: a rapidez com que a água está descendo nas últimas semanas.
Alto Solimões e Japurá também aceleram
A vazante não poupa outras regiões do estado. Em Tabatinga, no alto Solimões, na fronteira com Colômbia e Peru, o rio caiu 12 centímetros em 24 horas e chegou a 3,05 metros.
O recuo ali é ainda mais chamativo quando se olha para o mês inteiro: a cidade começou agosto com o Solimões em 6,01 metros. Em menos de quatro semanas, o rio já perdeu praticamente 3 metros.
Na calha do rio Japurá, o município de Maraã também sentiu o efeito. A queda desta quarta chegou a 13 centímetros, levando a cota a 12,22 metros — uma perda de 1,33 metro desde o dia 10 de agosto.
Itacoatiara acompanha a queda no rio Amazonas
No baixo Amazonas, Itacoatiara registrou recuo de 11 centímetros em 24 horas, com o rio chegando a 10,66 metros. O movimento confirma que a aceleração da vazante atinge praticamente toda a calha principal, e não apenas pontos isolados da bacia.
Por que a velocidade da queda preocupa tanto
No Amazonas, os rios não são só paisagem — são estrada, mercado e via de acesso à saúde para centenas de comunidades. Quando o nível cai rápido demais, a navegação fica mais difícil e o transporte de passageiros, alimentos, remédios e combustível pode travar.
Foi exatamente isso que as secas de 2023 e 2024 escancararam: municípios com dificuldade de mobilidade, abastecimento comprometido e comunidades ribeirinhas e indígenas isoladas por semanas. A pesca e a agricultura familiar, que sustentam boa parte da economia dessas regiões, também sofrem quando o rio baixa demais.
Por isso, uma queda diária de 11, 12 ou 14 centímetros, isoladamente, não indica uma crise. O que preocupa é a continuidade desse ritmo justamente num momento em que o cenário climático já aponta para menos chuva pela frente.
El Niño reforça o alerta para os próximos meses
O El Niño está configurado e segue em fortalecimento, com o boletim federal mais recente apontando permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027. Para o trimestre de agosto a outubro, a previsão é de chuvas abaixo da média em grande parte do centro-norte do Brasil, combinadas a temperaturas mais altas — uma receita que pode agravar a seca em áreas já vulneráveis.
Isso não quer dizer que o El Niño seja o único responsável pela vazante atual: o comportamento dos rios amazônicos depende das chuvas acumuladas em toda a bacia e de outros fatores atmosféricos. Ainda assim, a soma entre descidas mais rápidas e previsão de menos chuva aumenta a importância de monitorar de perto as próximas semanas.
Madeira tem comportamento oposto em Porto Velho
Nem todos os rios seguem a mesma direção. O rio Madeira, por exemplo, apresentou um comportamento diferente entre Rondônia e o Amazonas nesta quarta.
Em Porto Velho, o nível subiu 69 centímetros em 24 horas, chegando a 5,28 metros. A alta, porém, ainda não chegou ao trecho amazonense do rio: em Humaitá, o dado mais recente do Serviço Geológico do Brasil (SGB), até 18 de agosto, ainda apontava vazante, com queda de 79 centímetros em sete dias e a cota em 12,48 metros — dentro da faixa considerada normal para a época.
O que vem por aí
O Serviço Geológico do Brasil e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) devem apresentar, no dia 1º de setembro, novas avaliações e projeções para os rios Negro, Solimões, Amazonas e Madeira — um retrato que vai ajudar a dimensionar se o Amazonas caminha para mais um ano de seca severa ou se o ritmo atual ainda pode desacelerar.

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