Sem lixo, sem renda: incêndio no lixão de Iranduba deixa 35 famílias de catadores sem sustento

Material que garantia a renda de dezenas de trabalhadores foi consumido pelas chamas; associação de catadores e Movimento Nacional cobram apoio emergencial das autoridades

O fogo que consome o lixão de Iranduba há mais de três dias não destruiu só resíduos. Para 35 famílias que viviam da coleta de recicláveis no local, as chamas levaram embora o único sustento que tinham. Mais de 400 sacos de material já separado — plástico, papelão, metal — viraram cinzas antes mesmo de chegar ao comprador.

O incêndio começou na noite de quinta-feira (13/8), no Ramal do Janauari, e segue ativo neste sábado (15/8). A fumaça já foi vista de vários pontos de Manaus, inclusive nas proximidades da Ponte Jornalista Phelippe Daou, do outro lado do rio.

Trabalho de anos queimado em horas

Os catadores não provocaram o incêndio, mas são quem mais sente o golpe. Para eles, o lixão não era só um depósito de lixo — era o ponto de partida de uma cadeia de trabalho que sustentava famílias inteiras em Iranduba.

Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), que já se mobiliza em apoio ao grupo, as 35 famílias atingidas ficaram, da noite para o dia, sem material, sem trabalho e sem renda. O movimento reforça que a atividade é reconhecida como profissão regulamentada no Brasil.

“Os catadores não provocaram o incêndio, mas são os mais afetados pela falta de estrutura e de políticas públicas. É tempo de solidariedade e de ação”, diz um dos comunicados divulgados pelo MNCR.

Moradores da região também cobraram, em vídeos publicados nas redes sociais, que a Secretaria de Assistência Social do município vá até o local cadastrar os trabalhadores da Associação de Catadores. Uma moradora relatou que o material que os catadores já haviam separado antes do incêndio foi todo destruído pelo fogo, e que as famílias precisam de assistência urgente.

O pedido por apoio emergencial

Além da ajuda imediata, a mobilização em torno dos catadores de Iranduba pede mudanças estruturais. Entre as reivindicações estão o investimento em coleta seletiva e infraestrutura de trabalho adequada, a inclusão dos catadores nas políticas públicas de gestão de resíduos do município, e condições dignas de trabalho para quem, segundo o movimento, cuida do meio ambiente todos os dias.

“Catador é trabalhador. É dignidade. É direito ao trabalho”, resume um dos materiais de divulgação da campanha.

Quem quiser contribuir pode entrar em contato com Liliane, catadora de Iranduba, ou com Irineide Lima, representante do MNCR na região, por meio dos canais de comunicação divulgados pelo movimento.

Por que o fogo não para

Enquanto isso, o combate às chamas segue travado. O incêndio atingiu camadas profundas de resíduos, e a água jogada pelos bombeiros molha apenas a superfície do lixão, sem alcançar os focos que continuam queimando no subsolo.

O Corpo de Bombeiros atua na região desde a madrugada de quinta-feira, mas na manhã deste sábado os trabalhos estavam parados por falta de maquinário pesado. A Prefeitura de Iranduba tinha uma máquina disponível para acessar a parte subterrânea do lixão — mas o equipamento não estava no local. Sem ele, resta esperar a chegada de recursos ou a dissipação natural do fogo.

Fumaça compromete a saúde de quem mora perto

Para os moradores do Ramal do Janauari, a rotina virou um desafio diário. A fumaça intensa tem causado problemas respiratórios, principalmente em crianças e idosos — uma moradora relatou ter precisado levar o próprio filho para atendimento em Manaus.

A Secretaria de Saúde liberou as Unidades Básicas de Saúde da região para atender quem apresenta sintomas ligados à fumaça, e doações de máscaras já estão sendo distribuídas entre a população.

Um morador chegou a alertar, em tom de crítica à Prefeitura, para o risco de o fogo atravessar a estrada e atingir uma área de mata do outro lado da via — o que ampliaria ainda mais o estrago ambiental.

Prefeitura multada em mais de R$ 2 milhões

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) já multou a Prefeitura de Iranduba em mais de R$ 2 milhões após constatar a queima irregular de resíduos e a poluição atmosférica causada pelo incêndio. Até o momento, não há previsão de quando o fogo será totalmente controlado.

Não é a primeira vez que o lixão de Iranduba vira notícia por esse motivo. Em 2025, o local já havia enfrentado um incêndio que durou 22 dias, embora em proporções menores que o atual. A situação reacende o debate antigo sobre a necessidade de um aterro sanitário na região — pauta que comunidades locais já haviam levado à Defensoria Pública em mobilizações anteriores.

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