Levantamento mostra que Amom Mandel é o único parlamentar amazonense com emendas voltadas à crise ambiental — o valor representa 0,15% de tudo que a bancada já destinou este ano
Em um estado que convive todos os anos com secas históricas, rios que somem no verão e queimadas que tomam conta do noticiário, seria de se esperar que o meio ambiente estivesse no topo das prioridades da bancada federal do Amazonas. Não é bem assim. Levantamento mostra que, dos 11 parlamentares amazonenses no Congresso Nacional, apenas um destinou emendas individuais diretamente ligadas a ações climáticas e ambientais no orçamento de 2026.
O único nome nessa lista é o deputado federal Amom Mandel (Republicanos), que reservou R$ 710 mil para prevenção de incêndios florestais e gestão de recursos hídricos no Amazonas. Todos os outros — sete deputados federais e os três senadores do estado — não apresentaram nenhuma emenda individual voltada a meio ambiente, clima, recursos hídricos, prevenção de incêndios ou desastres ambientais em 2026.
Um valor pequeno diante de uma bancada bilionária
Para entender o tamanho da desproporção, é preciso olhar os números gerais. Cada deputado federal teve direito a R$ 40,25 milhões em emendas individuais neste ano, enquanto os senadores ficaram com R$ 74 milhões cada, na mesma modalidade.
Somando tudo, a bancada do Amazonas soma R$ 487,6 milhões em emendas empenhadas para 2026, segundo dados da plataforma Central das Emendas — desse total, R$ 412,15 milhões já foram efetivamente pagos. Diante desse volume bilionário, os R$ 710 mil de Amom Mandel para o meio ambiente representam apenas 0,15% de tudo o que a bancada amazonense destinou este ano.
Para onde vai o dinheiro de Mandel
Das emendas aprovadas para o deputado em 2026, duas têm relação direta com a pauta ambiental. A primeira, de R$ 400 mil, foi destinada ao Ibama para ações de prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais prioritárias do Amazonas — desse montante, R$ 100 mil já aparecem como empenhados, mas nenhum valor havia sido pago até a última atualização consultada.
A segunda emenda, de R$ 310 mil, foi endereçada à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), para a implementação da política nacional de recursos hídricos no estado. Juntas, as duas somam os R$ 710 mil que colocam Mandel como exceção isolada dentro da bancada.
Amazônia arde, mas a região inteira também deixa a desejar
O recorte não muda muito quando a lente se abre para toda a região Norte. O orçamento de 2026 destinado a emendas parlamentares nos sete estados nortistas soma R$ 3,45 bilhões, dos quais R$ 2,45 bilhões já foram pagos. Dentro desse universo gigantesco, um dos maiores valores ligados à agenda ambiental está em Rondônia, com o deputado federal Fernando Máximo (PL-RO), que destinou R$ 5 milhões ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima — recurso voltado à proteção e ao bem-estar animal, dentro do programa de combate ao desmatamento e a incêndios.
Somando os dois principais casos identificados no levantamento — os R$ 710 mil de Mandel e os R$ 5 milhões de Fernando Máximo —, chega-se a R$ 5,71 milhões destinados à agenda ambiental em toda a região Norte. Diante dos R$ 3,45 bilhões em emendas do Norte, esse valor representa apenas 0,17% do total.
O contraste com a urgência climática
O momento em que os números vêm à tona não poderia ser mais simbólico. A Amazônia segue enfrentando extremos climáticos — calor intenso, seca dos rios, queimadas recorrentes e enchentes em ciclos cada vez mais próximos uns dos outros — enquanto a discussão orçamentária mostra o quanto essa pauta ainda é secundária entre os parlamentares que representam a região.
O timing também chama atenção por outro motivo: os dados chegam às vésperas da campanha eleitoral, período em que a agenda ambiental costuma reaparecer com força nos discursos de candidatos ao governo do Amazonas, ao Senado e à Câmara dos Deputados — muitas vezes distante das prioridades reais definidas no orçamento.
O cenário, aliás, não é novidade. Levantamento anterior já havia mostrado que as ações ambientais e climáticas receberam apenas 0,58% de todas as emendas individuais no orçamento federal de 2026 — um retrato nacional que a bancada amazonense, na prática, apenas confirma em escala local.

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